Canetas emagrecedoras e novas terapias

o que realmente muda no tratamento da obesidade?

Vivemos um momento de grande atenção e, ao mesmo tempo, de muita desinformação. As chamadas “canetas emagrecedoras” ganharam enorme visibilidade, mas é fundamental esclarecer que não se trata de soluções milagrosas.

Esses medicamentos são fruto de décadas de estudos científicos sérios, desenvolvidos inicialmente para o tratamento do diabetes e, posteriormente, para a obesidade. Eles atuam em hormônios naturais do nosso corpo, regulando fome, saciedade e metabolismo.

Justamente por isso, o acompanhamento médico é indispensável. Estamos falando de terapias hormonais e metabólicas que precisam ser indicadas, ajustadas e monitoradas de forma individualizada, respeitando a história clínica, os objetivos e a segurança de cada paciente.

Dra. Ana Paula, nunca se falou tanto em canetas emagrecedoras. O que explica esse “frisson” em torno dessas medicações?

Dra. Ana Paula Costa: Esse movimento acontece porque, pela primeira vez, a medicina passou a ter medicamentos capazes de tratar a obesidade com resultados consistentes, sustentáveis e baseados em mecanismos fisiológicos reais.

Durante muitos anos, o tratamento medicamentoso da obesidade foi limitado e, muitas vezes, frustrante. As novas terapias mudaram esse cenário, trazendo perdas de peso clinicamente relevantes, melhora metabólica e redução de riscos cardiovasculares. Isso naturalmente chama atenção – tanto da mídia quanto da população.

Apesar de serem colocadas no mesmo grupo, essas canetas são todas iguais?

Dra. Ana Paula Costa: Não. Esse é um dos principais equívocos atuais. Embora muitas pessoas usem o termo “caneta emagrecedora” como se fosse uma coisa só, estamos falando de medicações diferentes, com mecanismos de ação distintos, potências diferentes e indicações específicas. Algumas atuam apenas no GLP-1, outras combinam dois ou até três hormônios metabólicos. Além disso, nem todas estão aprovadas para uso clínico, e sim em fase de pesquisa.

E o que elas realmente fazem no corpo?

Dra. Ana Paula Costa: Antes de tudo, é importante esclarecer um ponto fundamental: essas medicações não criam hormônios artificiais no organismo. Elas atuam imitando ou potencializando hormônios que o nosso próprio corpo já produz, especialmente aqueles envolvidos no controle da fome, da saciedade e do metabolismo.

Entenda GLP-1 e GIP

GLP-1 (sigla para Glucagon-Like Peptide-1) é um hormônio natural do nosso corpo, produzido principalmente no intestino logo após a alimentação. Ele funciona como um mensageiro metabólico, avisando ao cérebro e a outros órgãos que o corpo já recebeu alimento e não precisa continuar comendo.

O GIP (sigla para Glucose-dependent Insulinotropic Polypeptide) é um hormônio intestinal, liberado logo após a alimentação, especialmente quando ingerimos carboidratos e gorduras. Assim como o GLP-1, o GIP faz parte do grupo das incretinas — hormônios que ajudam o corpo a lidar melhor com a comida que acabou de ser ingerida.

Podemos começar pelas que já estão em uso. Qual é a diferença entre Ozempic® e Mounjaro®?

Dra. Ana Paula Costa: O Ozempic® (Semaglutida) atua exclusivamente como agonista do GLP-1, um hormônio que aumenta a saciedade, reduz a fome e melhora o controle glicêmico. Ele foi desenvolvido para o diabetes tipo 2 e está aprovado no Brasil para essa finalidade, com impacto secundário no emagrecimento.

Já o Mounjaro® (Tirzepatida) atua em duas vias hormonais: GLP-1 e GIP. Essa dupla ação costuma gerar respostas metabólicas mais intensas, com maior perda de peso em muitos pacientes.

Hoje, ele já possui indicação para controle crônico do peso e representa um avanço importante no tratamento da obesidade.

E quando falamos das novas moléculas, como a Retatrutida e a Survodutida, o que muda?

Dra. Ana Paula Costa: Essas moléculas fazem parte da chamada nova geração de terapias antiobesidade. A Retatrutida, por exemplo, atua em três vias hormonais ao mesmo tempo: GLP-1, GIP e Glucagon. Isso significa que ela não apenas reduz o apetite, mas também aumenta o gasto energético, o que explica os percentuais de perda de peso muito elevados observados nos estudos clínicos.

Ainda está em pesquisa, mas os resultados chamam bastante atenção.

A Survodutida, por sua vez, combina GLP-1 e Glucagon e vem sendo estudada com foco especial em obesidade associada a doenças metabólicas, como a esteatose hepática. Ela amplia o olhar do tratamento para além da balança.

Também se fala muito em novas opções orais, como Amycretin e Orforglipron. Elas substituem as canetas?

Dra. Ana Paula Costa: Ainda não, mas representam uma possível mudança de paradigma no futuro. O Amycretin combina GLP-1 com Amilina, outro hormônio da saciedade, e está sendo estudado tanto na forma injetável quanto oral.

O Orforglipron é um agonista de GLP-1 em comprimido, o que elimina a necessidade de injeções. Essas opções podem ampliar o acesso e melhorar a adesão ao tratamento, mas ainda precisam de mais dados de longo prazo e aprovação regulatória antes de entrarem na prática clínica.

O Bimagrumab costuma causar confusão. Ele também é um “emagrecedor”?

Dra. Ana Paula Costa: O Bimagrumab é bem diferente dos outros. Ele não atua diretamente na fome ou na saciedade. Seu principal efeito é na composição corporal, promovendo redução de gordura com preservação ou aumento de massa muscular. Isso é extremamente relevante, porque hoje sabemos que emagrecer perdendo músculo não é saudável. O Bimagrumab ainda está em fase de estudos, mas abre uma discussão importante sobre qualidade do emagrecimento, e não apenas quantidade de peso perdido.

Diante de tantas opções, existe um “melhor medicamento para emagrecer”?

Dra. Ana Paula Costa: Não existe um melhor medicamento universal. Existe o mais adequado para cada paciente. A escolha depende de fatores como o Grau de obesidade, Presença de diabetes ou pré-diabetes, Risco cardiovascular, Composição corporal, Histórico clínico e resposta individual. Por isso, a automedicação ou a escolha baseada apenas em “qual emagrece mais” pode ser perigosa.

Qual a principal mensagem para quem acompanha esse tema e pensa em usar essas medicações?

Dra. Ana Paula Costa: A principal mensagem é: obesidade é uma doença crônica e complexa, e hoje temos ferramentas muito melhores para tratá-la – mas elas precisam ser usadas com critério, acompanhamento médico e visão de longo prazo. Esses medicamentos não são atalhos estéticos. Eles fazem parte de um tratamento de saúde, que envolve mudança de estilo de vida, acompanhamento contínuo e individualização.

Informação de qualidade é o primeiro passo para uma decisão segura.

Nome comercial Princípio ativo Como atua no organismo Indicações principais
Ozempic® / Wegovy® Semaglutida Agonista do receptor GLP-1. Reduz o apetite, aumenta a saciedade, retarda o esvaziamento gástrico e melhora o controle glicêmico. Diabetes tipo 2 (Ozempic®) e obesidade e sobrepeso com comorbidades (Wegovy®).
Mounjaro® Tirzepatida Agonista duplo GLP-1 + GIP. Atua em centros de fome e saciedade com maior potência metabólica e impacto na perda de peso. Diabetes tipo 2; obesidade (em aprovação/uso em alguns países).
Retatrutide Retatrutida Agonista triplo GLP-1 + GIP + Glucagon. Além da saciedade, aumenta gasto energético e oxidação de gordura. Obesidade e doenças metabólicas (em fase avançada de estudos clínicos).
Survodutide Survodutida Agonista duplo GLP-1 + Glucagon. Combina redução do apetite com aumento do gasto energético. Obesidade e esteatose hepática associada à obesidade (em estudos).
Amycretin Amycretina Combinação de agonista GLP-1 com **análogos de amilina**. Atua fortemente no controle do apetite e comportamento alimentar. Obesidade (em desenvolvimento clínico).
Orforglipron Orforglipron Agonista GLP-1 oral (não injetável). Atua nos mesmos receptores das canetas, porém em comprimido diário. Obesidade e diabetes tipo 2 (em estudos clínicos).
Bimagrumab Bimagrumabe Anticorpo monoclonal que inibe miostatina/activina, promovendo redução de gordura com preservação ou ganho de massa muscular. Obesidade com foco em recomposição corporal (em estudos clínicos).

Dra. Ana Paula Arruda Camargo Costa

Dra. Ana Paula graduou-se em Medicina pela Universidade de São Paulo em Junho de 1993. Fez o período de residência médica em Clínica Geral no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo nos anos de 94 a 95. Dedicou-se também a um período residência médica especializando-se em Endocrinologia e Metabologia no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo de 95 a 97.

É Pós-Graduada na Disciplina de Endocrinologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo onde também obteve seu título de Doutorado em 2003.